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A épica camoniana por António José Saraiva

As epopeias traçam em suas narrações o plano de fundo histórico aos quais os poetas clássicos registraram as tradições e os grandes feitos de suas nações, exaltando seus heróis e seu povo, em um modo geral, utilizando a mais alta capacidade poética de expressão. É assim que Saraiva (1997) a define, na iniciação do capítulo IV do livro Luís de Camões. É óbvio que o historiador e também professor discorrerá de forma mais minuciosa sobre a temática durante todo o capítulo que se segue, mas, provavelmente, esse seja um dos maiores diferenciais do autor em relação a outros nomes, como por exemplo, Massaud Móises; este se torna extremamente prolixo em suas biografias, inclusive quando se trata de Luís de Camões e sua epopeia, em livros como Literatura Portuguesa. Saraiva é ao mesmo tempo conciso e profundo em suas colocações, a ponto de trazer maiores detalhes acerca da obra de um poeta que pouco se conhece da vida particular. António José Saraiva faz com muita acuidade uma classificação, ou…
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Recorte Lírico abre concurso e receberá textos para lançamento da primeira edição de revista

Muitos brasileiros acreditam que o nosso país não produz arte como se deveria, ou talvez não na quantidade que merecíamos, se tratando de um país com proporções continentais. O Projeto Recorte Lírico, em função disso e apegando-se aos seus próprios lemas, construiu um espaço singular para se produzir arte, e é com muito orgulho que compartilhamos com todos a chegada da Revista Recorte Lírico, edição: Iluminar.
Esta próxima edição vai reiterar o que o projeto sempre se propôs a fazer: dar luzes aos novos autores, que em sua maioria acaba “matando” os seus textos nas gavetas da vida. Essa é a chance de ressuscitá-los.
A “Recorte Lírico Iluminar” abrangerá alguns gêneros textuais, o que possibilitará a participação de diferentes “tipos” de autores: Os de crônicas, contos e poesia. Nossa proposta é (re)significar o atual cenário da literatura nacional, sem sermos pretensiosos, mas nos parece evidente que é preciso dar voz aos escritores que estão, de fato, pedindo passagem.
Vamos ao que ma…

As Lágrimas de Manolin

Talvez eu só tenha um coração mole — mas, quando Manolin viu as mãos feridas de Santiago em “O velho e o mar”, de Ernest Hamingway, eu e ele choramos juntos. Só fui entender essa minha reação emocional alguns dias depois, quando um professor comparou o livro com o poema “Mar Português”, de Fernando Pessoa. Valeu a pena?
Quando penso no velho Santiago, uma palavra me vem à mente, no idioma nativo de Hemingway: Struggle. É uma palavra que significa tão mais do que sua tradução “lutar”. Nas palavras do dicionário de Cambridge, significa tentar com muito afinco fazer algo incrivelmente difícil. Santiago, para mim, foi a personificação de Struggle até o fim. Mesmo sozinho, ele agarrou a oportunidade que se apresentou a ele e lutou até conquista-la. Conquistando, ele lutou bravamente para mantê-la, mesmo quando os tubarões, aos bandos, destroçaram pouco a pouco tudo aquilo que ele havia conseguido. Ao voltar para casa — uma conquista por si só — com uma carcaça de triunfo e cicatrizes para…

Adélia Prado: Repensando o ser-mulher*

A questão de gênero, que deve ser abordada no âmbito relacional, abrange o conceito de alteridade, já que os “gendramentos” acontecem para atender a uma expectativa que opõe masculino e feminino, a partir de determinados comportamentos. Sônia Missagia de Matos, em seu artigo “Repensando o gênero”, faz referência à teoria de Marilyn Strathern, que associa a alteridade à ativação da sexualidade:
Para uma pessoa encontrar outra do “sexo oposto” significa que o próprio gênero dele ou dela toma uma forma singular. Nessa condição uma pessoa elicita na outra uma forma sexual correspondente. Assim ele é totalmente masculino (all male), ou ela é totalmente feminina (all female) em relação a aquele outro. (MATOS, 1999, p. 51-52, grifo no original)
Porém, quando não há tal ativação, segundo a autora, predomina o estado denominado “cross-sex” (MATOS, 1999, p. 53), que prevê, no mesmo indivíduo, características atribuídas, convencionalmente, ao masculino e ao feminino. Essa relação com o outro é um…

Bob Dylan em discurso do Nobel: canções têm de comover pessoas, não fazer sentido

ESTOCOLMO - O cantor e compositor Bob Dylan, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, disse nesta segunda-feira que, ao contrário da literatura, suas canções sempre foram feitas para serem cantadas, não lidas, e que elas precisam apenas comover as pessoas, não fazer sentido. A decisão da academia sueca de dar o Nobel de Literatura do ano passado para Dylan, que "criou novas expressões poéticas dentro da grande tradição musical americana", foi vista como um tapa na cara de escritores tradicionais de poesia e prosa. Em sua carta para o Nobel, Dylan, notoriamente tímido com a mídia, disse: "Nossas canções são vivas na terra dos vivos. Mas as músicas são diferentes da literatura. Elas são feitas para serem cantadas, não lidas". "Se uma canção te comove, isso é tudo, é isso que importa. Não preciso saber o que uma canção significa. Tenho escrito todo tipo de coisas nas minhas canções. E não vou me preocupar com isso --o que tudo significa", disse ele no discurso d…

Felipe Neto diz que criança odeia Machado de Assis; Eu, digo que não.

Recentemente, estava por procurar algo interessante para assistir, deve ter sido em um dos tantos sábados ociosos, quando me deparei com o stand-up, ou qualquer coisa do tipo (parecia mais contação de história), do Felipe Neto. O material é Original Netflix, e eu costumo ver as produções originais, e o Felipe sempre me despertou curiosidade, por seu pioneirismo no YouTube Brasil e por gerar sempre polêmicas em suas apresentações públicas. E eu adoro uma polêmica, admito. O que me surpreendeu foi o fato da polêmica estar relacionada justamente a minha área de interesse, o que foi também uma delícia, porque isso acaba gerando texto aqui no blog. Vamos lá, no decorrer do seu texto, em meio aos gritos histéricos de suas fãs e dos incontáveis palavrões deferidos pelo artista, o que é do jogo, o Felipe Neto soltou a seguinte pérola:
“(...) A gente chega para as nossas crianças de 12, 13, 14 anos, e a escola obriga elas a lerem Dom Casmurro, Iracema, Senhora, pra uma criança, aí depois as pess…

O desconforto em falar de suicídio

É engraçado. Eu não queria — mesmo — falar sobre 13 Reasons Why. Na realidade, eu não queria nem mesmo ver. A ideia de assistir um seriado sobre as treze razões de uma garota adolescente ter se matado parecia realmente mórbido para mim. Contextualizando, eu tinha acabado de me reerguer de uma situação complicada — vou ser sincera, ainda estava me reerguendo — e não queria que algo assim me levasse para o poço de novo.


Mas então eu ouvi sobre a série na faculdade. E você sabe sobre aquela história do gato e da curiosidade. Eu pensei então — tudo bem, eu posso assistir isso. E pelos primeiros seis episódios eu acreditei que podia. Mas eu parei de ver — disse para mim que estava ficando chato — porque raios o Clay não escuta todas as fitas de uma vez?

Foi então que eu li a crítica sobre a série, escrita por Murilo Basso na Gazeta do Povo. “Treze motivos para não ver13 Reasons Why”. De todos, um em particular me fez querer terminar a série: “Alguns motivos catalisadores para Hannah se mata…

Como esconder o clichê na hora de escrever

Quem gosta de escrever (profissionalmente ou não), já deve ter parado em algum momento do processo de escrita de um romance e pensado "será que isso é clichê?". Algumas pessoas se perguntam, porque realmente querem seguir o clichê, mas outras querem evitá-lo. Como leitora (e escritora), não apoio nem um, nem outro, mas acredito que pode-se usar a técnica da escrita para esconder possíveis clichês e não vomitá-los na cara dos leitores. Como muitas pessoas dizem: "tudo o que é feito escondido, é muito melhor".
Eu participo de um grupo no Facebook chamado "Sociedade Secreta dos Escritores Vivos" (link do grupo) e, certa vez, me deparei com essa imagem que haviam postado lá:
Se formos parar para pensar, de fato, já lemos muitos livros que seguem quase a mesma ideia proposta. Primeiro, criamos empatia com o protagonista, depois surge alguma aventura, o protagonista quer desistir, mas persiste. Em seguida, você fica angustiado pela dificuldade do protagonista …

Antonio Candido: Fragmentos de uma releitura

No dia 12 de maio deste ano, foi divulgada a notícia da morte do crítico Antonio Candido, que estava prestes a completar 99 anos de idade. Arrisco dizer que o último grande evento literário de que Candido participou foi a Flip de 2011, comprovando sua intensa atividade. Com uma produção incessante (considerando livros, artigos, capítulos, e textos para jornais), o escritor nos deu centenas de obras fundamentais para a literatura, acompanhando a história e aplicando a teoria. Inclusive, muito em breve, o autor nos brindará com o lançamento póstumo de um texto inédito, que ele dedicou ao colega e ex-aluno Alfredo Bosi. Quando ouvi a notícia da morte de Antonio Candido, lembrei que, apenas dois dias antes, eu tinha relido dois textos dele, os quais considero essenciais: “A literatura e a formação do homem” e “O direito à literatura”. O crítico e todos os textos dele são presença constante em minhas aulas e em meus artigos. Talvez, essa predominância seja uma questão de afinidade, crença, …