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Escola sem partido existe?

Essa é uma questão que está dividindo o público nos grupos das redes sociais, as rodas de discussão na televisão e até as salas de aula. Tudo isso depois do historiador Leandro Karnal, no programa Roda Viva, afirmar veementemente que não existe escola sem partido: “É uma asneira sem tamanho, uma bobagem conservadora, é coisa de gente que não é formada na área e que decide substituir o que eles imaginam que seja uma ideologia em sala de aula por outra ideologia, que é a conservadora... não existe escola sem ideologia”. Em seguida, o deputado estadual do PP, Marcel Van Hattem, publicou um vídeo onde criticava diplomaticamente, como ele mesmo afirmara, o posicionamento de Karnal ao assunto, dizendo que este cometeu o erro dos intolerantes pois não admite o contraditório.

Imagem: EBC

Veja bem, o tema é muito mais complexo do que qualquer “briguinha” de rede social, ao qual estamos habituados em ver nos dias de hoje, mas parece que qualquer incongruência de ideias gera um alvoroço nas redes, e isso não me parece nada bom. Os fatos merecem ser analisados, mas não conseguiremos traçar um prognóstico muito claro, por isso já afirmo que, em minha opinião, “os lados” estão um tanto certo quanto um tanto errado.

É fácil lembrar o meu tempo no colegial, até por que não faz muito tempo, mas as memórias de alguns professores e temas apresentados em sala de aula permanecem vivas em meu subconsciente. Algumas, digo, poderiam até ser traumáticas. Ok, vamos aos fatos! Lembro muito bem da professora de sociologia Glória, que até soa contraditório visto que era atéia convicta, ensinar em exaustão as demandas teóricas de classes do Karl Marx que, mesmo sem ainda ter noção ampla da sua vida pessoal refletida em sua obra, já não familiarizava muito com suas convicções. Isso seria muito natural, não fosse o fanatismo da professora, que refletia diretamente na ausência total do ensinamento de outros teóricos da área, tão importantes, ou mais, que o Marx. Saindo um pouco da minha vida pessoal e do nosso país, vejo a matéria do site Spotniks, apresentando algumas imagens que “prova” a doutrinação feita nas escolas cubanas, com imagens e até poemas dos seus “heróis” nacionais. Ok! Esse é um ponto importante para ser analisado.

Imagem: freepik.com
Outro fator que precisamos entender é o seguinte: Não existe escola sem ideologia. Entendo Leandro Karnal e os inúmeros professores que repudiam a tese apresentada pelo deputado até certo ponto, e é a questão do não abordar determinados temas, e por consequência, apresentar somente outros. O professor não pode chegar à sala de aula para lecionar se não for munido de todos os traços ideológicos que somou ao longo de sua carreira e que o colocou na função que desempenha atualmente. É impossível imaginar um discurso feito por um ensinador sem que esse aborde todo o seu conhecimento técnico, que logicamente carregará as marcas de suas preferências filosóficas, metodológicas, e por aí vai...

Estamos caminhando para uma sociedade do certo e o errado, do oito ou oitenta, onde não se admite mais o diálogo e a diplomacia. Não queremos professores nas universidades que sejam de do partido A ou B, queremos professores! Não quero ser um professor, da rede pública ou privada, levantando bandeira azul ou vermelha, quero ser um professor! Quero ser um levantador de debates, um facilitador da construção do pensamento, quero ficar “em cima do muro”, pelo menos dentro da sala de aula. Aqui fora, posso ser quem eu quiser. O que não posso é utilizar o espaço sagrado ao qual me foi concedido para gritar jargões políticos e incitar à ira partidária como se tem feito nos últimos anos. Eu quero uma escola com muita ideologia, que sejam abordadas todas, faço questão. Eu quero uma escola sem partido, pois ela existe, o que não é admissível é escola sem opinião.


Cássio Miranda é estudante de Letras e escritor nas horas ociosas. 

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