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Autor do livro de microcontos "Deixa Que Eu Conto" conversa com o Recorte Lírico

O quinto Recorte Entrevista, o 2º do mês de agosto, que têm sido o maior sucesso entre as nossas editorias, será com o autor brasiliense Luis Gabriel Sousa, autor do livro “Deixa que eu conto”, que inclusive já foi resenhado pela equipe do blog. Formou-se em Letras, fez pós-graduação em Literatura Brasileira e outra em Cultura e Literatura, mudou-se para Curitiba em 2010, onde deu os primeiros passos no campo literário. Hoje, aos 28 anos, reside em Cali, Colômbia, onde leciona língua portuguesa para estrangeiros e escreve as suas aventuras em microcontos, em sua maioria postados no Facebook, onde mantém o blog “Escritor de Mochila” sempre atualizado.  Tendo lançado o primeiro livro em 2015, o autor nos conta sobre a sua segunda obra, que já está pronta e deve ser lançada em 2017, quando o autor regressa à Curitiba. Na entrevista, Luis Gabriel nos confidenciou suas opiniões a cerca do atual cenário literário e cultural do país, além de falar sobre o seu começo como escritor e os planos para o futuro na Colômbia e no Brasil. Vale muito a pena conferir!

RL – Luis Gabriel, conte-nos um pouco sobre sua experiência com os livros e a escrita ainda quando era criança, e como isso contribuiu para sua formação de escritor, nos dias atuais.
Luis – Não venho de uma família leitora e de grande contato com livros. Num dos poucos momentos de contato literário que recordo, era quando minha mãe lia à noite, antes de dormir, enquanto meu pai, eu e meus irmãos ficávamos na sala assistindo novelas, jogos de futebol, etc. Como eu sempre fui apaixonado por esportes, eu lia bastantes jornais esportivos e revistas que falavam sobre futebol. Este era o único contato que eu tinha com a leitura, além das obrigatórias da escola. O primeiro livro que eu li foi “Eu, Cristiane F., 13 anos, drogada e prostituída”, depois de minha mãe me indicar a leitura. Eu tinha 14 anos na época. A partir de então eu comecei a ler um pouco mais, mas nada muito relevante e muito menos com frequência.
Apesar de não ler muito, a escrita já fazia parte da minha vida. Sempre que me sentia meio pra baixo, triste ou preocupado com alguma coisa, eu pegava papel e caneta e ia pro quarto escrever como forma de desabafo. Então, se teve algo que serviu como incentivo para eu ser escritor foi o meu contato comigo mesmo!

Foto: Acervo Pessoal/Reprodução

RL – Por que escrever microcontos? Tem a ver com a questão da urgência que está instaurada em todas as instâncias da nossa vida?
Luis – Eu sempre fui apaixonado por contos, mas os microcontos me encantam muito mais. Partindo do princípio linguístico, ele é mais leve, mais solto, com menos regras, menos detalhado sintaticamente e mais rico semanticamente, ou seja, tudo que eu gosto na nossa língua. Esse desapego das regras e o foco na essência da coisa me encantam mais.
Contudo, o principal motivo pra eu escrever microcontos é a rapidez com que as pessoas podem ler, isso faz com que desperte um pouco mais o hábito da leitura nelas. A ideia inicial (que ainda é) foi escrever microcontos pra conseguir fazer as pessoas descobrirem o prazer na leitura e tirarem a ideia de que pra ser leitor tem que ler clássicos ou textos “obrigadas”. Acho que até agora vem dado certo, o retorno dos leitores tem sido bem gratificante.

RL – Seus microcontos narram, em sua maioria, lembranças de acontecimentos da sua própria vida. Como trabalhou esse tema nas narrações? Leva aspectos 100% verossímeis ou tem um pouco de fantasia?
Luis – Eu sou muito nostálgico, um verdadeiro amante da vida e do que passou da vida, por causa disso eu sempre me lembro de coisas que aconteceram e me marcaram. Portanto, elas vêm à mente e eu passo pro papel, sem pensar muito ou planejar o que vou escrever. Tento ser 100% verossímil, mas, pra mim, não existe texto verossímil, existe o texto de fulano e sicrano, visto da visão de fulano e sicrano. Mas as histórias são todas reais, nunca criadas.

RL – Nas redes sociais, você conta histórias de outras pessoas em microcontos, o que é mais relevante abordar neles, visto que a narrativa é mais curta, logo talvez até mais difíceis de escrevê-las.
Luis – Eu recebo bastante histórias das pessoas e ouço muitas também. Como os microcontos são narrativas que precisam de uma conclusão direta e reflexiva para o leitor, antes de escrever eu penso “que lição essa história vai dar pra quem for ler?”, a partir daí eu vou escrevendo o enredo baseado no que a pessoa me relatou.

RL – Os próximos trabalhos ainda terão essa forma de contos ou partirá para um romance, quem sabe?!
Luis – Não sei se nasci para escrever um romance (rsrsr). O segundo livro está prontinho e serão apenas microcontos, vai se chamar “vendo a vida com as mãos”. São micronarrativas baseadas em histórias que as pessoas me mandaram, além de histórias minhas também. Posso garantir que está bem mais engraçado e mais emotivo que o primeiro! São histórias que com certeza o leitor vai se identificar com algumas delas. Achei que conseguiria lançar ainda em 2016, mas com precisei vir morar na Colômbia este ano, ficou adiado para quando eu voltar para Curitiba, em 2017.
O terceiro livro também está quase concluído. Este foge do estilo de microcontos, mas também não é romance. É a história de uma mulher que se descobre viva aos 45 anos, após fazer o Caminho de Santiago de Compostela. Foi 1 ano e meio de reuniões, encontros, coleta de informações e escritas. A história é linda e real. A Kátia me convidou para escrever o livro e eu aceitei na hora. Será lançado no final deste ano ou no primeiro semestre de 2017.

RL – Falando um pouco da questão editorial, em sua opinião qual o maior empecilho para se lançar um livro hoje no país?
Luis – Acredito que o meio empecilho sejam as próprias editoras. Temos muitos autores bons e sem espaço no mercado, mas que não conseguem ir adiante por não se submeterem a pagar quantias absurdas para publicar livros. As propostas que as editoras fazem quando mandamos originais para análise são decepcionantes, quando elas respondem, claro. Mas temos editoras ótimas que valorizam autores, não se pode generalizar, e fazem um trabalho junto com o autor muito bom.

RL – Falando dos novos autores, sabendo que é um especialista em Cultura, qual a importância da leitura dos Best Sellers, como a Kéfera Buchmann, como porta de entrada para os títulos mais clássicos?
Luis – Eu não gosto de ler Best Sellers, mas por gosto pessoal mesmo. Sou a favor da leitura independente se pra mim é boa ou ruim, todas são válidas e agregam algo pro leitor, mesmo que seja muito ruim, como a Kéfera, por exemplo, ativa o senso crítico de quem não gosta e lê. Eu, por exemplo, não gosto de Paulo Coelho, mas sei reconhecer que ele consegue atingir leitores no mundo todo. Contudo, não acredito que os Best Sellers sejam livros que sirvam de porta de entrada para um clássico. Quem não tem o hábito de ler, lê um livro da Kéfera e depois tenta ler Lucíola, por exemplo, dificilmente vai entender alguma coisa.
Acho que para introduzir o leitor ao clássico existem outras maneiras, que não seja pelos Best Sellers.

RL – Para finalizar, recebemos a notícia de última hora de sua viagem à Colômbia. Como essa passagem por um país que tem autores tão emblemáticos pode contribuir para o seu perfil de escritor?
Luis – Pois é, aqui estou eu te escrevendo! Eu não conheço muita coisa da Colômbia, apenas Gabriel Garcia Marquez, mas poder conviver com os conterrâneos dele, viver e pisar nesta terra que ele viveu, vai me ajudar muito como escritor e ser humano. Cheguei aqui esta semana e ficarei por 1 ano colhendo histórias, escrevendo microcontos e tentando me tornar um escritor mais rico culturalmente. Prometo conhecer outros autores e indicar para vocês o que de melhor temos por aqui.

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