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Autor angolano lança trilogia sobre sua relação com a Bahia e demais países lusófonos

O autor Ricardo Ferreira, nascido em Benguela, formado em Portugal, e que vive no Brasil, mais especificamente na Bahia, há 13 anos, mergulhou profundamente na Literatura com a sua trilogia "O Grande Banquete", na qual trata das questões da aproximação cultural, linguística e social entre os países lusófonos, com bagagem suficientemente específica, visto que o escritor possui experiências concretas em três desses países de Língua Portuguesa.

O autor mistura em sua obra experiências pessoais com a ficção narrativa. (Imagem: Reprodução/Internet)

RL – Em "O Grande Banquete – Viagens à nossa volta", o personagem João Antônio percorre os dois lados do Oceano Atlântico, migrando entre a Bahia e Benguela. Na obra, o que há de mais significante ao tratar essas duas realidades civis?

Ricardo – O primeiro livro "O Grande Banquete – a Transformação e o Templo",  retrata a minha experiência pessoal e a visão de um português que resolve atravessar o atlântico e começar uma nova vida além mar. A narrativa é toda na primeira pessoa, onde descrevo as vivências tidas e vividas, o dia a dia, o restaurante do qual fui proprietário e a paixão pela Bahia, terra abençoada, berço de criatividade e espontaneidade, expresso nas mil e uma formas do devir humano, nos feitos heroicos, no colorido dos sons tons e sabores, no continuo respeito às tradições e no permanente desafio á vida. O segundo livro "O Grande Banquete – Viagens à Nossa Volta, ao qual a vossa pergunta se refere inicialmente, pretende dar uma significância especial a uma questão da qual sou abnegado  defensor a muitos anos e que é a “Lusofonia”. A minha atividade profissional sempre esteve muito ligada a estreitar relações políticas e diplomáticas entre os países Lusófonos, principalmente Angola, Portugal e Brasil. Nasci em Angola - Benguela e ainda criança devido á guerra colonial, fui com a família para Portugal onde fui educado, tornei-me homem e pai, aprendi a amar e ser amado, e hoje vivo no Brasil, por isso por vezes tenho alguma dificuldade em distinguir as origens, carrego comigo uma miscigenação sem fronteiras capaz de enxergar as culturas sem preconceito. No meu ponto de vista, esses três países formam uma unidade, que me acolhe. O personagem João Antônio é a representação desses três países irmãos e donos de legados fundamentais na construção do processo de irmandade e no fortalecimento do elo que nos une e que ele próprio representa.

RL – Ao escolher mergulhar no estado baiano, tanto como autor e civil, como vê o atual cenário cultural e literário do nosso país?
Ricardo – Com alguma preocupação. Sem educação não existe evolução, sem educação o ser humano não passará de uma mera marionete enfeitada a bel prazer de alguém, de outrem. Desvaloriza-se a cultura, poucas são as políticas publicas culturais que surtem efeito na sua essência, cultua-se a ignorância o deixa andar. Quase não se lê não se promove nem se desenvolve a leitura nas escolas nem aos jovens, em termos estatísticos, o país tem índices baixos  por habitante em termos de aquisição de livros. Esperemos que a médio e longo prazo a situação melhore.

Ricardo Ferreira, que é casado com uma brasileira, vive na Bahia há mais de 10 anos. (Imagem: Reprodução/Internet)
RL – Com a terceira publicação, “O Grande Banquete Eles e Elas e os Risos do Fado”, qual principal avanço identificou em sua escrita, tanto estética, mas também linguisticamente.

Ricardo – A minha escrita tornou-se mais reflexiva, mais incisiva. A narrativa ficou mais sutil, talvez devido às questões sociais que me fazem refletir. Sinto que o meu posicionamento é mais critico, pois são os tantos retrocessos que vislumbro em termos sociais, ideológicos, políticos, por esse planeta azul, que não poderia deixa-los fora da tessitura da trama narrativa. Neste terceiro romance conto a historia de dois estudantes, um português, Carlos e uma brasileira, Lisa, que se conhecem no dia de Santo António (13 de Junho) em Lisboa na década de oitenta do século XX, no meio universitário português. Todos, um dia, fomos jovens, cheios de vida de ambições, de objetivos de ideias novas e a geração (eles e elas) denota uma inquietude, um aprendizado e frenesi diário pelo futuro que estava ali à frente. São vários encadeamentos onde os personagens ganham vida. Os sentimentos florescem ao longo do romance, o amor do jovem casal perdura e resiste a todas as vicissitudes da vida. Acho que  não devemos perder de vista os fados, para não deixá-los aos “risos”, quando menosprezamos a vida.

RL – A característica de “cor local” é muito evidente no romance, a utilização desse recurso veio de forma natural à escrita ou você colocou como recurso metalinguístico?

Ricardo – Se bem entendi a colocação, a cor local, faz parte do quotidiano dos meus romances. Sendo eu um cidadão de três mundos que se complementam através da língua portuguesa e dessa Lusofonia que nos une, faz sentido privilegiar a narrativa daquilo que nos une. Esse “tanto mar” que nos separa também nos unifica.  Nós somos um só, o que difere é unicamente o meio cultural onde estamos inseridos. A cor local pode-se resumir a uma única palavra, “aculturação”. 

RL – Devido à forte recessão econômica que o Brasil vem atravessando, o mercado editorial, consequentemente, tem diminuído em termos de publicações, embora em menor déficit, em comparação aos outros nichos. Em sua opinião, quais são as principais diferenças desse mercado no Brasil e em Portugal, onde você também viveu.

Ricardo – Nesse ponto de vista, a crise é generalizada. Se o mercado editorial já era difícil e complicado, a situação agravou-se ainda mais, porque foi reduzido o poder de compra drasticamente e com isso os chamados bens “supérfluos” são os primeiros a serem retirados da lista aquisitiva, infelizmente para todos nós. Eu sou e serei sempre um otimista. As crises são cíclicas, são estruturais, melhores dias virão, com toda a certeza. Devemos ser sempre otimistas na vontade e na persecução dos nossos objetivos. Desistir jamais.

Da Redação/Cássio Miranda. 

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