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Raimundo Carrero: A pergunta que se repete e se repete confusa: O que é literatura?

Por Raimundo Carrero

Escritor e jornalista

Os criadores, exclusivamente criadores, não fazem esta pergunta: O que é literatura? Nem os leitores e, imagino, nem certa linhagem de críticos. Mas ela é feita, com insistência, pelos estudiosos mais ilustres, pelos acadêmicos ou universitários. Fica circulando nas salas de aula, nos livros, nos ensaios mais exigentes.

Mesmo assim, há uma unanimidade entre leitores e escolares – medianos ou universitários – que reconhecem logo a literatura em tudo aquilo que diz respeito à palavra escrita – romance, novela, conto – com objetivos estéticos e cuja finalidade é a Beleza. Quer dizer então que um romance político ou religioso não é literatura? É sim desde que se submeta, em princípio, aos objetivos de bom gosto, da estética e, portanto, da beleza. Deixa de ser literatura se a obra considera apenas – ou sobretudo -o conteúdo ou a mensagem política, ideológica, religiosa.

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Foto: Reprodução/Internet

Quer dizer que estou definindo literatura? Estou dando uma opinião, é claro, mas não tenho a pretensão de ser definitivo. Um grande escritor, reconhecidamente grande, pode escrever grandes mensagens políticas mas submetê-las à Beleza, conquistando notáveis resultados estéticos. E aí estará a literatura e seus objetivos mais esperados.

O romance “Mãe”, de Máximo Gorki, é considerado um magnífico texto literário. Ali o escritor russo examina ideias políticas, mas cercando as palavras de Beleza com cenas, cenários e diálogos dotados de Beleza – embora os diálogos permitam a revelação de discursos ideológicos ou religiosos, por exemplo, enfim, conteudísticos.   
     
É claro que isso não resolve o conflito. Estou apenas tentando indicar um caminho que envolve assunto tão grave. Quem faz Curso de Letras conhece desde muito cedo o texto de Terry Eglanton sobre o assunto, mas há outros bem importantes como os de Aristóteles e Derrida, que têm autoridade de gênios.

Mesmo assim, faço outra pergunta que para mim é definitiva: Qual é o objetivo da arte e seu principal sentido? A busca da Beleza e sua revelação. Tudo mais é vaidade e o vento que passa, conforme o Eclesiastes.

Não é palavra definitiva, sem dúvida. Mas provoca-me uma grande tristeza e profundo estranhamento a decisão dos economistas de tirarem a literatura do mercado, como algo insignificante. Bárbara estupidez porque a palavra escrita sobreviverá a esta revolução tecnológica. Convoquem todos os tabletes, convoquem todos os celulares que a palavra escrita permanecerá firme.


Fonte: Diário de Pernambuco

Da Redação 

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