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'Barba ensopada de sangue' e o mito na literatura contemporânea brasileira

Já não bastasse o romance de Daniel Galera ter sido considerado “o melhor livro do ano”, em 2013, pelo júri do Prêmio São Paulo de Literatura, o que rendeu R$ 200 mil aos cofres do autor paulista radicado em Porto Alegre, “Barba ensopada de sangue” reservou-lhe um espaço especial ao lado dos grandes escritores brasileiros na contemporaneidade. Antes pioneiro no uso da internet com publicações de textos em fanzines eletrônicas, Galera começa a “incomodar” o status-quo do cenário literário brasileiro, e explicarei os motivos.

'Barba ensopada de sangue' foi eleito o melhor livro do ano pelo Prêmio SP de Literatura.
(Foto: Reprodução/Internet)

Para começo de conversa, um romance no século vinte e um com 422 páginas (edição 1ª – Companhia das Letras), precisa ser original e nada cansativo e, nesse ponto, o autor atingiu, em cheio, minhas expectativas. Começando pelo narrador da história, heterodiegético e imparcial, nota-se pela proximidade ao protagonista, com digressões breves, usando sofisticada linguagem, em detrimento ao baixo nível intelectual do professor de educação física da referida história. E não é só pela linguagem que o narrador se diferencia, a autenticidade está na colocação dos fatos, sendo contado sem a onisciência comum dos narradores em 3ª pessoa, esse sempre está na presença do protagonista, relacionando-se à contínua dificuldade dele memorizar rostos (prosopagnosia, ou dificuldade para reconhecer rostos – doença neurológica raríssima), e por esse motivo há sempre conflitos em sua mente e tensões nas suas relações interpessoais.

O enredo em sai de Barba ensopada de sangue conta a história de três gerações de homens que acabam por se aventurar na cidade de Garopaba, interior de Santa Catarina, com a morte inexplicável do avô Gaudério, a ida do protagonista à cidade atrás de explicações e, por fim, o sobrinho desse último, que visita a cidade catarinense para entrevistar nativos a cerca da morte do tio, que já é anunciada numa espécie de prólogo. O próprio prólogo é peça-chave no livro, é o “começo no fim”, visto que se percebe outro sentido no enredo ao lê-lo no término da trama. Esse sentido adquirido é o do mito, o que endossa um elo fabuloso entre as três gerações tratadas na história.

O romance pitoresco do bom e jovem autor Daniel Galera é um dos melhores livros que já li escritos há tempos recentes. Galera retoma temáticas que tantos outros autores brasileiros trabalharam, inclusive os gaúchos – como João Gilberto Noll –, com uma apropriação refinada e original, garantindo que o futuro da nossa geração literária é mais do que promissora; é, claramente, bem sucedida. 

Cássio de Miranda, o editor. 

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